O Israel que se ergue nos púlpitos
Fé, profecia e poder no sionismo cristão brasileiro

A bandeira de Israel já se tornou presença familiar em muitos templos evangélicos brasileiros, ela aparece atrás do púlpito, nas marchas políticas, sobre os ombros de fiéis que nunca pisaram em Jerusalém. Às vezes, vem acompanhada de uma menorá, de um shofar ou de um talit. A imagem suscita uma pergunta que vai além da curiosidade sobre símbolos religiosos: de que Israel estamos falando quando uma comunidade cristã o exibe como sinal de sua própria fé?
Há o Israel das Escrituras, cuja memória atravessa o cristianismo; há o judaísmo vivo, plural, que não se reduz às representações cristãs; e há o Estado de Israel, fundado em 1948, sujeito à história, às disputas territoriais e às obrigações do direito internacional, confundir essas três realidades permite que uma interpretação da Bíblia seja convertida em adesão automática às decisões de um governo. É nessa passagem, muitas vezes silenciosa, que a devoção se transforma em programa político.
Uma das matrizes dessa aproximação é o dispensacionalismo, corrente sistematizada no século XIX em torno de John Nelson Darby e difundida, posteriormente, por redes protestantes. Seu modo de ler a história distingue etapas do plano divino e atribui papéis específicos à Igreja e a Israel. Em versões populares dessa escatologia, o retorno dos judeus à terra, a fundação do Estado israelense e, para alguns grupos, a expectativa de um novo templo em Jerusalém são interpretados como sinais dos acontecimentos finais. Não há, porém, uma única cronologia aceita por todos os dispensacionalistas, nem a reconstrução do templo pode ser apresentada como condição universalmente afirmada para a volta de Jesus.
Sob esse olhar, 1948 deixou de ser apenas um marco histórico e político: passou a funcionar, para muitos crentes, como confirmação visível de uma leitura profética. O risco surge quando a convicção de que Deus age na história dispensa a investigação do que os seres humanos fazem nela. A formação de um Estado, os direitos de seus habitantes, o deslocamento dos palestinos e as escolhas de governos concretos não desaparecem porque alguém acredita encontrar nas Escrituras uma chave para os últimos tempos.
A pesquisa de Maria das Dores Campos Machado, Cecília Loreto Mariz e Brenda Carranza demonstra que esse imaginário não nasceu com as eleições brasileiras de 2018. Publicações evangélicas favoráveis a Israel circulavam no país desde o século XX, entre denominações históricas e pentecostais. A visibilidade política recente deu nova potência a uma tradição já existente. Convém acrescentar que, nas últimas décadas, outras teologias também passaram a alimentar esse apoio: a teologia do domínio, por exemplo, mobiliza a ocupação cristã dos espaços de poder, e discursos da prosperidade associam a bênção prometida a Abraão à posição que pessoas e nações assumem diante de Israel. Reduzir tudo ao desejo de antecipar o Apocalipse seria perder essa combinação de interesses e crenças.
O uso cristão de símbolos judaicos também tem histórias diferentes, pode expressar interesse pelas origens judaicas de Jesus, aproximação sincera com o povo judeu ou experiências religiosas próprias de comunidades judaizantes, em outros contextos, esses objetos são incorporados como sinais de autoridade espiritual e de uma suposta proximidade privilegiada com a fonte original da fé, o shofar deixa de remeter a uma tradição concreta e passa a funcionar como instrumento de guerra espiritual; o talit e a menorá, deslocados de seus significados, tornam-se marcas de uma espiritualidade que promete eficácia, proteção e prosperidade.
Não cabe ridicularizar a experiência religiosa dos fiéis, tampouco presumir que todo uso desses símbolos tenha o mesmo sentido, cabe perguntar quem interpreta a tradição judaica, quem se beneficia de sua circulação e se existe espaço para ouvir judeus reais. Uma comunidade pode celebrar a imagem bíblica de Israel e, ainda assim, desconhecer a pluralidade do judaísmo contemporâneo, pode amar um povo imaginado e permanecer indiferente à sua autonomia religiosa.
Esse mecanismo também altera a maneira como se lê a Bíblia, as promessas feitas em contextos antigos são transportadas, sem mediação histórica, para um Estado moderno; em seguida, uma política de governo é apresentada como extensão dessas promessas. A passagem parece natural porque já foi preparada por anos de pregações, viagens religiosas e imagens partilhadas, mas interpretar uma narrativa sagrada não é conferir imunidade moral a uma instituição política.
Reconhecer tudo isso não significa afirmar que cada pastor ou cada fiel participa conscientemente de um projeto político, significa admitir que afetos religiosos têm efeitos políticos e que esses efeitos podem ser organizados por instituições interessadas em apoio público. A questão decisiva é: quando a fé chega ao Parlamento e à política externa, ela se dispõe a responder pelos direitos de todos os envolvidos?
É necessário preservar distinções éticas elementares. O antissemitismo precisa ser enfrentado sem reservas; a existência e a segurança dos judeus não podem ser relativizadas, mas também não se pode apagar a vida, a terra e os direitos dos palestinos, entre os quais há muçulmanos e cristãos. Criticar ações do Estado de Israel não equivale, por si, a hostilizar judeus, e defender a dignidade palestina não exige justificar a violência contra civis israelenses. Quando uma teologia torna impossível pronunciar essas frases ao mesmo tempo, talvez esteja servindo mais à identidade de um bloco político do que à justiça que diz anunciar.
Existe, por fim, uma contradição que não pode ser escondida sob a aparência de amizade, em certas versões do dispensacionalismo, os judeus ocupam lugar indispensável no drama dos últimos tempos, mas o desfecho esperado inclui sua conversão a Cristo e, em narrativas mais severas, a morte de muitos dos que não se converterem, o povo judeu é celebrado como protagonista da profecia enquanto sua continuidade religiosa, em seus próprios termos, deixa de ser reconhecida como um fim em si. Não é a crença cristã na própria fé que produz sozinha esse paradoxo; é transformar pessoas vivas em peças de um roteiro cujo sentido já foi decidido por outros.
Como filósofo, teólogo e psicanalista, desconfio do momento em que o outro deixa de nos interpelar e passa apenas a confirmar nossas certezas. Uma espiritualidade que só consegue enxergar o judeu bíblico e não escuta o judeu contemporâneo, que invoca a Terra Santa e não vê o palestino que nela vive, corre o risco de amar suas imagens mais do que os seres humanos. Jesus não pediu aos seus seguidores que suspendessem a compaixão diante de uma fronteira. Talvez a fidelidade mais exigente à fé comece justamente aí: na disposição de examinar as próprias leituras, recusar a sacralização dos Estados e reconhecer, em cada vida ameaçada, alguém que não pode ser sacrificado em nome do nosso fim dos tempos.



