O Brasil das urnas: medo, fé e a disputa pelo sentido

Ivo Fernandes • 7 de outubro de 2026

Uma reflexão sobre o primeiro turno de 2026, o avanço da direita e a dificuldade de compreender um país cujas escolhas não cabem em uma explicação única.

Tenho acompanhado as reações ao primeiro turno das eleições brasileiras com a impressão de que, em muitos casos, a pressa de explicar o resultado acaba nos afastando daquilo que precisaríamos compreender. Uns responsabilizam os evangélicos, outros as redes sociais, a desinformação ou o desgaste do governo; há ainda quem se espante com o voto de pessoas que receberam benefícios sociais, como se a melhoria de suas condições de vida devesse produzir, necessariamente, adesão ao projeto político responsável por ela. Embora essas questões mereçam atenção, nenhuma delas, tomada isoladamente, dá conta de uma sociedade na qual experiências materiais, pertencimentos religiosos, expectativas e frustrações se misturam de maneiras que nem sempre correspondem às nossas categorias de análise.


O resultado de 4 de outubro torna essa discussão incontornável. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%, e o PL ampliou sua presença no Congresso, elegendo 121 deputados e conquistando 19 das 54 vagas disputadas no Senado. Há, portanto, um avanço expressivo da direita, mas a leitura desse avanço precisa conviver com outros elementos, entre eles a proximidade dos números na disputa presidencial e o crescimento da bancada da federação PT-PCdoB-PV na Câmara, que passou de 82 para 88 deputados. O país que emerge das urnas continua profundamente dividido, e o fortalecimento de um campo político não apaga as diferenças que existem tanto entre seus adversários quanto entre os próprios eleitores que o apoiaram.

 

Talvez uma das primeiras dificuldades esteja justamente em aceitar que pessoas muito diferentes podem votar no mesmo candidato por razões distintas. Entre os eleitores da direita encontramos adesão ideológica, conservadorismo moral, rejeição ao PT, desejo de alternância, preocupações econômicas, medo da violência e avaliações negativas do governo, além de vínculos familiares, comunitários e religiosos que participam da formação de uma escolha. Essas motivações também se combinam: alguém pode defender serviços públicos, receber um benefício social e, ao mesmo tempo, desejar punições mais severas ou se reconhecer na linguagem de um candidato conservador. A aparente contradição pode dizer menos sobre uma incapacidade do eleitor do que sobre a insuficiência das categorias com as quais tentamos compreendê-lo.


Isso não elimina a responsabilidade política de quem fortalece lideranças autoritárias, nem diminui a necessidade de denunciar discursos que ameaçam direitos e legitimam a violência. Minha preocupação é que, quando tratamos todos esses eleitores como se fossem movidos pela mesma disposição extremista, perdemos a possibilidade de entender como um projeto consegue alcançar pessoas que não pertenciam ao seu núcleo militante. Também deixamos de observar o peso das estruturas partidárias, das alianças e das relações territoriais, que continuam atuando mesmo quando a visibilidade digital parece ocupar todo o cenário; como ressalta a análise da Rádio Câmara, a projeção nas redes convive com vínculos locais e com a capacidade de parlamentares destinarem recursos às suas bases.

 

Há um cansaço que precisamos ouvir com mais atenção. Quando uma pessoa diz que não suporta mais determinado governo ou campo político, pode estar expressando uma rejeição partidária, mas pode também estar reunindo nessa frase o desgaste de uma vida atravessada pelo endividamento, pelo transporte precário, pela insegurança e pela sensação de trabalhar muito sem conseguir sair do lugar. A percepção de que “são sempre os mesmos” não acompanha necessariamente a cronologia dos governos, pois se alimenta da permanência de nomes, conflitos e promessas que, para parte da população, já não parecem oferecer um horizonte diferente. É possível que responsabilidades de vários poderes sejam concentradas injustamente no Executivo, assim como é possível que existam falhas pelas quais o próprio governo precisa responder.


A violência, por exemplo, não pode aparecer na análise apenas como um tema manipulado pela direita. Antes de ser uma pauta eleitoral, ela é uma experiência que altera rotinas, limita deslocamentos e produz medo, especialmente em territórios nos quais a população convive com ameaças que nem sempre chegam ao debate público na mesma intensidade com que são vividas. Se a resposta progressista parece incapaz de reconhecer essa angústia, discursos punitivos encontram espaço para apresentar a brutalidade como proteção, mesmo quando suas propostas não resolvem o problema e podem aprofundá-lo. Uma política comprometida com direitos precisa oferecer uma resposta à insegurança que seja reconhecível por quem teme perder um filho ou não voltar para casa.


Algo semelhante ocorre com os impostos. A reclamação pode conter equívocos, confundir responsabilidades ou reproduzir interesses que pouco beneficiam o trabalhador, mas também pode nascer da experiência de um orçamento apertado e da percepção de que aquilo que se paga não retorna em serviços suficientes. Explicar a estrutura tributária, defender justiça fiscal e mostrar quem suporta proporcionalmente os maiores encargos exige levar essa experiência a sério. O fato de uma queixa ser aproveitada politicamente não torna irrelevante o sofrimento que lhe dá sustentação, embora ainda precisemos de pesquisas para dimensionar o peso dessas motivações no voto deste primeiro turno.


É nesse ponto que vejo um problema no distanciamento de setores progressistas em relação às classes populares. Há ambientes nos quais a linguagem política se torna tão dependente de referências compartilhadas por um círculo restrito que deixa de conversar com quem vive fora dele, e essa distância pode vir acompanhada de uma atitude de superioridade diante das palavras, dos costumes e das crenças de outras pessoas. Quem chega a uma comunidade sobretudo para corrigir sua maneira de falar ou pensar dificilmente será percebido como alguém disposto a compartilhar suas dificuldades; às vezes, o que se apresenta como esclarecimento é recebido como mais uma experiência de desqualificação.


Isso tampouco justifica colocar os direitos das mulheres, das pessoas negras ou LGBT em oposição às necessidades populares, como se esses sujeitos não estivessem entre aqueles que trabalham, pagam contas e enfrentam a precariedade. O desafio é compreender como essas dimensões se encontram e fazer com que a defesa de direitos dialogue com moradia, renda, segurança, alimentação e condições de trabalho. Há uma diferença entre sustentar uma pauta e conseguir apresentá-la de modo que as pessoas reconheçam nela aspectos de sua própria existência, e essa diferença se torna especialmente grave quando a democracia é defendida numa linguagem que parece distante da vida cotidiana de quem se pretende representar.


No campo religioso, essa dificuldade assume contornos que conheço também pela minha própria trajetória. Não consigo olhar para as comunidades evangélicas, especialmente pentecostais e neopentecostais, apenas como um problema eleitoral, porque sei que a igreja ocupa, para muitas pessoas, um lugar de convivência, reconhecimento e elaboração do sofrimento. Isso não apaga as formas de dominação que podem existir nesses espaços, mas ajuda a compreender por que o desprezo dirigido à fé pode ser vivido como uma ofensa que alcança a história, a família e os vínculos de quem a pratica.


Por isso, considero necessário discutir o quanto a falta de interlocução e a ridicularização presentes em certos ambientes progressistas podem ter contribuído para esse afastamento, sem transformar tal hipótese numa afirmação sobre toda a esquerda ou numa causa já demonstrada do resultado. Existem experiências de diálogo, organizações religiosas progressistas e fiéis que não acompanham a orientação política de suas lideranças. Como advertiu a socióloga Ana Carolina Marsicano após o primeiro turno, atribuir o cenário eleitoral ao conjunto dos evangélicos obscurece tanto as diferenças internas desse campo quanto a participação de atores católicos próximos à extrema direita; a pesquisa de Ronaldo de Almeida sobre 2018 também permite situar a relação entre religião e conservadorismo num processo social mais amplo.


É preciso reconhecer essas diferenças para que a crítica alcance aquilo que deve alcançar: lideranças que exploram a confiança dos fiéis, transformam adversários em ameaças espirituais e utilizam o sagrado para legitimar projetos de poder. A defesa da laicidade exige enfrentar essa instrumentalização, enquanto o diálogo com pessoas religiosas exige respeito por sua liberdade e por sua dignidade. Quando se perde essa distinção, pode-se acabar oferecendo material à narrativa de que todo pensamento progressista pretende destruir a fé, sobretudo quando a pessoa já encontrou hostilidade concreta em nome desse pensamento.


Outra questão que o resultado recoloca é a expectativa de que benefícios sociais produzam, por si mesmos, consciência política e fidelidade eleitoral. Políticas públicas podem melhorar a vida e influenciar a avaliação de governos, mas quem as recebe continua interpretando o mundo a partir de múltiplas experiências, de modo que um benefício valorizado pode conviver com insatisfação em outras áreas. O estudo de Matthew Layton, Maureen Donaghy e Lúcio Rennó sobre o Bolsa Família encontrou associações entre o recebimento do benefício e a confiança em determinadas instituições e atores, sem encontrar efeitos equivalentes sobre dimensões mais amplas de legitimidade democrática. Embora se refira a outro período, a pesquisa ajuda a compreender por que acesso a uma política, confiança institucional e adesão política duradoura não são a mesma coisa.


Há ainda um pressuposto problemático na cobrança de gratidão eleitoral, pois ela aproxima um direito da lógica do favor. Uma pessoa não contrai uma dívida política com um governante por acessar uma política pública, e sua liberdade de voto não diminui em razão disso. Se queremos discutir formação política, precisamos considerar espaços de participação, organização e debate nos quais os sujeitos possam compreender os conflitos que atravessam sua realidade, sem pressupor que a transferência de renda realizará sozinha esse trabalho.

As redes sociais participam desse cenário ao modificar as condições de circulação da informação e de construção da confiança. Quando falo em uma era de narrativas, não pretendo dizer que os fatos perderam sua existência ou suas consequências, mas que sua força política depende de como são apresentados, de quem os apresenta e das experiências nas quais encontram acolhimento. Uma informação pode ser verdadeira e não conseguir atravessar uma relação de desconfiança, enquanto uma falsidade pode parecer plausível porque confirma um medo ou chega pela voz de alguém reconhecido como próximo.


A pesquisa de William Brady e colaboradores sobre debates nos Estados Unidos encontrou maior difusão de mensagens que mobilizavam linguagem moral e emocional, especialmente dentro de redes ideológicas. Esse resultado não demonstra como as plataformas determinaram o voto brasileiro de 2026, mas oferece um mecanismo relevante para pensar um ambiente no qual indignação e pertencimento favorecem a circulação de certas mensagens. Convém lembrar, contudo, que engajamento não equivale automaticamente a voto e que a própria recepção depende de relações que ultrapassam a tela.


A linguagem utilizada para alcançar diferentes grupos precisa, então, ser examinada para além de sua simplicidade. Um testemunho, uma piada ou uma fala de indignação pode comunicar proximidade porque se parece com as formas pelas quais as pessoas conversam e expressam seus conflitos; se essa proximidade já existe, a mensagem encontra condições de ser ouvida. Por outro lado, trocar algumas palavras num discurso não resolve a ausência de relações duradouras com um território, e uma campanha pode soar artificial justamente quando tenta simular uma intimidade que nunca construiu.


A reflexão de Guy Debord sobre o espetáculo ajuda a compreender como a visibilidade e a encenação passam a organizar relações políticas, fazendo com que a força de uma figura seja julgada pela capacidade de produzir impacto. Nesse ambiente, a agressividade pode ser recebida como autenticidade, e a humilhação de um adversário pode adquirir o valor de uma demonstração de coragem. A preocupação está no modo pelo qual certos públicos passam a tolerar discursos violentos quando reconhecem neles uma expressão de revolta contra uma ordem que os frustra, ainda que isso não signifique uma autorização uniforme de toda a sociedade.


O cansaço acrescenta outra dimensão a essa leitura. Byung-Chul Han descreve o esgotamento associado à pressão por desempenho, mas, no Brasil, esse referencial precisa ser aproximado das condições concretas de trabalho, da desigualdade e da insuficiência de proteção social. Há pessoas cuja disponibilidade para acompanhar um debate complexo é atravessada por jornadas exaustivas e pela urgência de sobreviver, o que nos obriga a considerar as condições materiais da própria participação política, em vez de atribuir toda dificuldade à falta de interesse ou de racionalidade.


Anna Kornbluh, em Imediatez, permite aprofundar a questão ao examinar uma cultura que valoriza a instantaneidade e procura dispensar mediações. Ao trazer essa reflexão para a política, penso no apelo de promessas que oferecem alívio imediato e tratam processos de negociação, investigação e construção coletiva como entraves dispensáveis. É uma interpretação teórica que ajuda a formular perguntas sobre nosso tempo, sem substituir o trabalho empírico necessário para explicar esta eleição. Pela perspectiva psicanalítica, também podemos considerar como desejos, ideais e identificações participam do vínculo com uma liderança, tomando o cuidado de não transformar uma contribuição à análise da vida política em diagnóstico de eleitores à distância.


Diante disso, a tarefa democrática me parece mais exigente do que encontrar uma estratégia de comunicação capaz de vencer a próxima disputa. Ela envolve reconstruir vínculos, reconhecer erros de governo, enfrentar problemas que afetam a vida cotidiana e abrir espaços nos quais as pessoas possam participar sem sentir que precisam primeiro se adequar ao vocabulário de quem as recebe. Também envolve compreender que os afetos não pertencem exclusivamente à política autoritária, pois esperança, solidariedade e desejo de justiça sustentam projetos democráticos quando encontram experiências concretas nas quais podem se desenvolver.



Ainda temos muito a investigar sobre este primeiro turno, e seria incoerente defender a complexidade apenas para, ao final, apresentar minha própria explicação como definitiva. O que considero necessário é uma disposição para ouvir inclusive aquilo que incomoda nossas certezas, sem renunciar à crítica de projetos que ameaçam a convivência e os direitos. Se a população aparece no debate apenas como destinatária de políticas ou como problema quando vota de maneira inesperada, continuaremos deixando escapar boa parte de sua experiência; é nessa aproximação com a vida que as pessoas efetivamente levam, e com as palavras pelas quais tentam compreendê-la, que a democracia poderá recuperar parte da confiança que hoje disputa.

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