Carta aos meus, com o coração partido
Carta íntima tornada pública

Eu gostaria de dizer que compreendo seu voto em Flávio Bolsonaro e que respeito sua decisão sem ressalvas, mas estaria mentindo se escondesse, por trás dessas palavras, a dor que essa escolha me provoca, sobretudo quando vem de pessoas que partilham comigo a mesa, os afetos e uma história de vida.
Como filósofo, psicanalista e professor de ciências humanas há tantos anos, conheço alguns dos mecanismos sociais e psíquicos que ajudam a explicar o tempo em que vivemos, os medos que mobilizam as pessoas, os ressentimentos que encontram expressão na política e a força dos discursos que oferecem respostas simples para uma realidade tão complexa. Essas explicações, porém, não nos dispensam da responsabilidade, porque existe um sujeito implicado em cada escolha, com suas possibilidades de reflexão, sua liberdade e o dever de responder pelo que decide. Na política, essa responsabilidade se torna ainda maior, pois as consequências do nosso voto alcançam também quem não escolheu conosco.
É nesse ponto que minha compreensão encontra um limite, porque me custa assimilar como pessoas que conhecem minha trajetória, meu filho e minhas filhas conseguem apoiar um projeto político no qual reconheço ameaças à nossa dignidade, aos nossos direitos e às condições que tornam nossa vida possível. Antes de tratar esse sentimento como exagero, gostaria que vocês se dispusessem a examinar com seriedade os discursos, as propostas e as alianças desse campo político, prestando atenção ao lugar reservado às mulheres e às pessoas LGBTQIAPN+, tantas vezes transformadas em inimigas de uma ordem moral que parece precisar da nossa exclusão para se sustentar.
Talvez vocês consigam ouvir determinadas falas como excessos de campanha, brincadeiras ou questões secundárias diante de outras prioridades, mas eu as escuto como alguém cuja vida é atingida por elas. Quando falo de direitos, estou pensando no meu filho, nas minhas filhas, na minha saúde, nas pessoas que chegam à clínica atravessadas pelo sofrimento e em tantas outras que precisam enfrentar diariamente a suspeita de que sua existência vale menos. O medo que tento comunicar tem rostos, nomes e histórias que vocês também conhecem.
Dói especialmente perceber que pessoas que cantam os mesmos louvores que eu, leem a mesma Bíblia e dizem amar o mesmo Jesus conseguem apoiar práticas que considero tão contrárias ao Evangelho. Pergunto-me como chegamos ao ponto de tomar a presença de um político no altar como prova de compromisso com a vida, como se o aval de uma liderança religiosa pudesse substituir nosso discernimento sobre aquilo que ele diz, faz e representa. Também me pergunto o que acontece com a fé quando o prestígio, o controle e a proximidade com os poderosos passam a orientar mais nossas escolhas do que o sofrimento de quem está diante de nós.
Sinto falta da comunidade de fé que marcou minha infância, daquela palavra que anunciava amor, justiça e libertação, que nos ensinava a orar por todos os governantes e a reconhecer no próximo alguém a quem devíamos cuidado. Sei que aquele tempo também tinha contradições e não pretendo transformá-lo em um passado perfeito, mas guardo dele uma exigência que ainda me acompanha: a fé precisa nos tornar mais responsáveis pela vida do outro. Quando ela serve para justificar a indiferença, o desprezo ou a retirada de direitos, preciso perguntar o que estamos fazendo com o nome de Jesus.
Há ainda uma dor difícil de explicar, que é perceber pessoas da minha própria família desconsiderando minha palavra e minha trajetória enquanto acolhem, com tão pouca resistência, mensagens de desconhecidos nas redes sociais. Não espero que acreditem em tudo o que digo por causa da minha formação ou do vínculo que temos, mas gostaria que estivessem dispostas a me ouvir, conferir as informações que apresento e considerar a possibilidade de que minhas preocupações tenham fundamento.
Quando menciono suspeitas e investigações que marcam trajetórias políticas, sei que é necessário distinguir acusação de condenação, assim como sei que essa cautela deveria valer para todos. Quando aponto riscos às políticas públicas das quais dependemos, gostaria que vocês examinassem o que estou dizendo antes de descartar minha preocupação como propaganda partidária. O que me fere é sentir que o esforço de apresentar informações, discutir propostas e mostrar consequências concretas esbarra tantas vezes em uma certeza que já não admite perguntas.
Imagino que, do lado de lá, alguns estejam dizendo o mesmo sobre mim, convencidos de que também fui enganado. Por isso, precisamos preservar alguma possibilidade de conversar a partir de fontes verificáveis, de reconhecer uma informação falsa mesmo quando ela favorece nosso candidato e de rever uma posição quando os fatos a contradizem. Não reivindico para mim ou para o campo em que voto uma imunidade à mentira, mas assumo o compromisso de não proteger minhas convicções à custa da verdade e gostaria de encontrar em vocês essa mesma disposição.
Também conheço as críticas ao PT e ao governo Lula, e meu voto não depende de ignorá-las. Gostaria de viver uma alternância democrática em que pudéssemos discutir caminhos para a economia, a educação, a saúde e a segurança sem carregar o receio de que a dignidade de determinadas pessoas fosse colocada em negociação. Não procuro salvadores da pátria, tampouco espero pureza moral de qualquer figura pública, até porque eu mesmo não poderia reivindicá-la.
Reconhecer os limites de todos, entretanto, exige que saibamos distinguir trajetórias, práticas e projetos, em vez de colocar tudo na mesma vala e concluir que qualquer escolha produz consequências equivalentes. O que está diante de mim envolve limites éticos que não consigo abandonar em nome de uma promessa econômica, de uma identidade religiosa ou da rejeição a um partido. Por isso, pergunto a vocês quanto estão dispostos a relativizar para impedir uma vitória do PT e quem poderá pagar o preço dessa decisão.
É doloroso fazer essa pergunta a pessoas que amo, porque, quando vocês tratam como aceitáveis os riscos que tento comunicar, sinto que algo de mim e dos meus também está sendo recusado. Não afirmo que desejem nos fazer mal, mas preciso que compreendam como essa escolha chega até nós e o que ela produz em nossa relação. O amor que existe entre nós torna tudo isso ainda mais difícil, porque eu esperava encontrar nele uma disposição maior para escutar aquilo que nos faz sofrer.
Do lado em que voto, não encontro um modelo político, econômico ou social perfeito, e seria irresponsável prometer que nenhum direito estará sujeito a disputa ou que nenhuma injustiça acontecerá. Continuarei cobrando, criticando e me posicionando diante do que considerar errado, porque meu compromisso com a vida e com a democracia não pode depender da conveniência de um governo. É com essa liberdade que escolho e é também para preservá-la que escrevo.
Gostaria de despertar alguma reflexão, embora saiba que esta carta talvez nem seja lida até o fim por quem mais desejo alcançar. Ainda assim, não consigo permanecer calado, pois o silêncio começaria a me afastar daquilo em que acredito e das pessoas cuja existência quero defender. Escrevo com a esperança de que vocês consigam me ouvir para além da disputa eleitoral, reconhecendo nesta voz alguém que conhecem, que amam e que está tentando lhes dizer que sente medo.
Em certos momentos, penso em me afastar para me proteger da dor de repetir tudo isso sem encontrar escuta, mas sei que não será simples romper os vínculos que constituem minha história. Continuarei amando vocês, ainda que precise descobrir como permanecer perto sem apagar o que sinto, e buscando na minha fé alguma maneira de atravessar essa ferida sem permitir que ela se transforme em ódio.
Quando me lembro do pedido de perdão de Jesus na cruz, penso na dificuldade humana de reconhecer a gravidade do que fazemos e nas consequências que preferimos não enxergar. Essa lembrança me alcança também, porque não escrevo do lugar de quem se considera livre de contradições, mas de quem sofre e ainda deseja preservar uma possibilidade de encontro. Espero que possamos reconhecer nossos erros enquanto ainda houver tempo de cuidar de quem será atingido por eles.
Esta é uma carta aos meus que torno pública porque sei que outras pessoas vivem uma dor semelhante, tentando explicar a familiares e amigos por que uma escolha política atravessa tão profundamente sua intimidade. Vocês já fizeram suas escolhas para o Parlamento, alguns talvez movidos por um desejo sincero de mudança, mas esse desejo não encerra a responsabilidade sobre o poder que ajudaram a constituir, sobre as pautas que fortaleceram e sobre aqueles que agora terão condições de decidir por todos nós.
No dia 25 de outubro, haverá uma nova escolha, e meu pedido é que vocês parem para considerar o que pode significar concentrar ainda mais poder nesse projeto. Pensem nas mulheres, nas minorias, nas pessoas LGBTQIAPN+ e em todos aqueles que precisam lutar para que seus direitos sejam reconhecidos; pensem também no que acontece com uma igreja quando sua proximidade com os poderosos compromete sua disposição de acolher os que sofrem e de denunciar a injustiça.
Gostaria muito de descobrir, no futuro, que meu receio foi maior do que precisava, mas não consigo fazer essa aposta com a vida dos meus sem dizer o que penso e sinto. Se estas palavras não forem suficientes para fazê-los reconsiderar o voto, espero que ao menos permaneçam com vocês quando chegar a hora de acompanhar suas consequências, para que tenham coragem de discordar de quem elegeram, reconhecer uma injustiça e defender aqueles que estiverem ameaçados.
Se a esperança não prevalecer agora, torço para que vocês ainda reconheçam a tempo aquilo que precisa ser barrado, antes que a crueldade encontre abrigo na lei, seja aceita na convivência e passe a fazer parte da vida cotidiana como se sempre tivesse sido assim. Para muitos de nós, o tempo entre perceber uma ameaça e sofrer suas consequências pode ser curto demais.
É porque ainda amo, e porque esse amor não me permite desistir de tentar alcançá-los, que torno pública esta carta.
Com profundo respeito, compromisso com a verdade e o coração partido, eu vos escrevo.
Ivo Fernandes



