Minha fé e escolha pelo Menino

Ivo Fernandes • 25 de dezembro de 2025

Eu escolho o Menino

Demorei a escrever a mensagem de Natal deste ano. Não por falta do que dizer, mas pelo excesso. Cada pensamento que se formava era imediatamente atravessado por outros, e, no meio desse movimento, algo mais forte me tomava: uma reverência silenciosa diante do sagrado. Não me atrevia a dizer qualquer coisa diante da maravilha. Permaneci quieto. E talvez esse silêncio já fosse, em si, uma forma de oração.

Este é o espírito que habito agora: uma admissão radical do mistério divino. A consciência serena e libertadora de que homem nenhum detém saber sobre Deus. Tudo o que temos são aproximações. Temos teologia, temos doutrina, temos conceitos. Mas, no fim, o que verdadeiramente nos resta é a poesia. E hoje, mais do que nunca, prefiro a poesia. Ela me leva mais perto do mistério do que toda a obra teológica já produzida. É como poeta que ainda falo. É como poeta que ainda prego, anuncio e celebro.

Eu poderia falar, como tantos fazem, da beleza do nascimento de Jesus, aquilo que a tradição chamou de doutrina da encarnação, e de seus inúmeros desdobramentos. Poderia discorrer sobre seus significados psicológicos, sociológicos, filosóficos. Tudo isso é legítimo. Tudo isso é importante. Mas dois acontecimentos recentes me atravessaram de modo especial e reorganizaram minha forma de olhar para este Natal.

O primeiro foi uma pregação que ouvi há poucos dias. O pregador perguntava: qual Jesus estamos celebrando no Natal? A provocação é boa, necessária até, sobretudo num tempo em que há muitos “Jesus” disponíveis no mercado da fé, moldados conforme gostos, ideologias e interesses religiosos. No entanto, o caminho que ele escolheu foi o de opor o menino pobre da manjedoura ao Rei poderoso, Salvador e Governador, conduzindo sua audiência a adorar o Jesus Rei em detrimento do menino frágil de Nazaré.

Do ponto de vista doutrinário, é verdade: ambas as imagens pertencem ao cristianismo histórico. O melhor talvez fosse não escolher, mas fazer síntese. Ainda assim, se me fosse exigida uma escolha e, em alguma medida, sempre nos é, eu não hesitaria. Eu escolho o menino Jesus de Nazaré. Escolho o humano. Profundamente humano.

Escolho esse Deus escandaloso que nos desconcerta ao esvaziar-se de sua própria divindade. Esse Deus que não se protege, que não se impõe, que não se blinda com poder, mas nasce entre nós. Nasce pequeno. Vive simples. Morre como homem. Ressuscita sem jamais abandonar a humanidade. O Cristo Rei, poderoso e governador, foi uma escolha posterior do cristianismo institucional , uma imagem que, não por acaso, dialoga bem com os interesses do poder, da ordem e do controle. O menino da manjedoura, não. Ele desinstala. Ele ameaça. Ele revela um Deus que não cabe nas estruturas que criamos para dominá-lo.

O segundo acontecimento foi uma conversa numa roda aparentemente comum. Havia ali um senhor de quase oitenta anos que, ao longo do encontro, foi revelando muito mais do que imaginava. Primeiro, insistiu em elogiar de forma excessiva duas jovens presentes. Depois, passou a falar sobre homossexuais, condenando-os ao inferno. Em seguida, afirmou com orgulho ser um “homem de Deus”. Logo depois, vangloriou-se de seus muitos casamentos. Por fim, entrou na política e se afirmou conservador.

Quando fiz algumas pontuações, tentando mostrar que o Deus de quem ele falava não parecia carregar misericórdia nem graça, ele me perguntou se eu era gay ou comunista. Ali, sem qualquer esforço teórico, vi novamente os muitos “Jesus” em disputa. Vi o Jesus que serve para justificar preconceitos, violências simbólicas, arrogâncias morais. Vi o Jesus que legitima o ego inflado, a falta de compaixão e a ausência de amor.

Saí dessas duas experiências com ainda mais convicção das minhas escolhas e da fé que sigo defendendo. Uma fé alicerçada no menino da manjedoura. Uma fé que se deixa conduzir pela poesia de cada detalhe deste Natal: o estábulo, os pastores, os anjos, os animais, um casal simples e assustado diante da vida que nasce. Uma fé que não se apoia na força, mas na vulnerabilidade. Que não se afirma pelo medo, mas pela graça.

Uma estrela continua me guiando. Não uma estrela de poder, mas de misericórdia. Não de controle, mas de amor. E enquanto ela brilhar, seguirei caminhando.


Feliz Natal.

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