Quando a Visibilidade Tem Nome
Reflexões de um pai de um homem trans

O Dia da Visibilidade Trans não é uma data abstrata, nem um debate teórico distante. Ele tem nome, rosto, história, rotina, silêncios e conversas atravessadas de afeto. Eu sou pai de um homem trans. Um jovem de 18 anos. E tudo o que escrevo aqui nasce menos de uma posição ideológica e mais de uma experiência vivida, daquelas que transformam para sempre quem a atravessa.
Ser pai de uma pessoa trans é ser convocado a reaprender o amor. Não porque o amor não existisse antes, mas porque ele precisa crescer, deslocar-se, abandonar certezas fáceis e abrir espaço para o real. Houve dores, sim. Houve lutos silenciosos, não da pessoa, jamais, mas das imagens que criamos, das expectativas que projetamos sem perceber. Houve medo, insegurança, noites longas, perguntas sem resposta. Houve luta. Houve desafios que não aparecem em manuais de paternidade.
Mas, acima de tudo, houve amor. E respeito. Um amor que não exige que o outro caiba nos nossos esquemas, mas que se expande para caber nele. Um respeito que não nasce da compreensão total, porque ninguém compreende totalmente o outro, mas da decisão ética de reconhecer: “você sabe quem você é melhor do que eu”.
Acompanhar esse processo foi entender, na prática, que identidade não é rebeldia, não é moda, não é afronta. É sobrevivência psíquica. É a tentativa legítima de alinhar corpo, nome, linguagem e existência para continuar vivendo. Quando um jovem trans diz quem é, ele não está pedindo autorização; está oferecendo verdade. E a pergunta que se impõe aos pais não é “o que eu acho disso?”, mas “o que faço com esse amor que me foi confiado?”.
Vi de perto o peso do mundo sobre os ombros de um jovem que só quer existir. Vi como a sociedade cansa, fere, desacredita. Vi como a violência nem sempre vem em forma de agressão explícita, mas de risos, silêncios, olhares, burocracias, negações sutis. E, justamente por isso, entendi que visibilidade não é militância vazia, é proteção. É dizer: “você não está só”.
Ser pai de um homem trans me ensinou que amar um filho não é defender uma ideia, mas defender uma vida. É escolher estar ao lado mesmo quando o caminho não é simples. É sustentar a mão quando o mundo empurra. É aprender a escutar mais do que falar. É errar, corrigir, pedir perdão, crescer junto.
Neste Dia da Visibilidade Trans, eu não falo como especialista, nem como alguém que observa de fora. Falo como pai. E digo com convicção: nenhuma teoria, nenhuma crença, nenhuma tradição vale mais do que a vida e a dignidade de um filho. O amor verdadeiro não anula quem o outro é, ele cria espaço para que o outro exista.
Que a visibilidade trans seja, antes de tudo, isso: um chamado ao amor que amadurece, ao respeito que sustenta e à coragem de permanecer junto. Porque, no fim, não se trata apenas de identidade de gênero. Trata-se de humanidade.
Ivo Fernandes



