Ainda Estou Aqui

Ivo Fernandes • 25 de novembro de 2024

O Rosto da Resistência e a Força do Sorriso

Ontem finalmente consegui assistir ao filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, após adiar o momento por diversas razões. Queria evitar que as muitas opiniões e críticas que acompanham seu sucesso interferissem na minha experiência, permitindo-me um olhar mais pessoal sobre a obra. O resultado foi arrebatador. O filme é uma peça cinematográfica magnífica, e o destaque absoluto vai para a atuação visceral de Fernanda Torres como Eunice Paiva, cuja força e humanidade sustentam a narrativa.


A potência do filme está no rosto de Eunice, capturado em cada expressão, lágrima e sorriso. É através dela que a história revela a complexidade de resistir em um dos períodos mais sombrios da história do Brasil: a ditadura militar. Mas Eunice não é uma vítima passiva. Ela transforma a dor, o sofrimento e a angústia em resistência. Seu imperativo, "Sorriam!", emerge como um ato de insubordinação poética. Não era um sorriso banal, mas um gesto que desafiava tanto os torturadores do Estado quanto a maquinaria midiática que buscava apagar sua dignidade e sua humanidade.


Essa resistência pela alegria e pela insistência em viver me remete a uma reflexão que compartilhei recentemente sobre o racismo: muitas vezes, resistir é continuar vivendo, insistir em ser feliz e em sorrir num mundo que frequentemente nos quer privar disso. Eunice exemplifica essa força transformadora. Seu sorriso, mesmo em meio ao terror, ressignifica o sofrimento, oferecendo outra forma de expressão e, principalmente, de enfrentamento.


Embora o filme não seja diretamente uma obra de denúncia política, sua mensagem é inevitavelmente política e existencial. Trata-se de um retrato visceral do drama humano diante de cenários de terror estatal. A fala da personagem Eunice, sobre como o desaparecimento político condena as famílias a uma tortura psicológica eterna, sintetiza a brutalidade desse mecanismo. Não é apenas a vítima que desaparece, mas a paz e a estabilidade de todos ao seu redor.


Esse aspecto do filme dialoga profundamente com a história real que o inspira, baseada no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva. Eunice Paiva, cuja vida foi marcada pela busca incansável por justiça, dedicou-se a encontrar respostas sobre o destino de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido em janeiro de 1971. Apenas em 2014, com o relatório da Comissão Nacional da Verdade, criada no governo Dilma Rousseff, a família obteve informações concretas sobre as circunstâncias de sua morte, resultado de torturas extremas nas mãos do regime militar.


Esses eventos históricos não apenas sustentam a narrativa do filme, mas também trazem à tona a urgência de reafirmar o grito de "Ditadura Nunca Mais". O fascismo e o autoritarismo ainda encontram eco em palavras e atos de muitos políticos e cidadãos brasileiros, e é papel de cada um de nós resistir a essas forças com todas as armas que temos: a memória, a cultura, a educação e, por que não, o sorriso.


A força de Eunice está não apenas em sua luta política, mas em sua capacidade de manter a família unida e esperançosa, mesmo diante do horror. A atuação de Fernanda Torres, complementada por Fernanda Montenegro nas cenas finais, entrega um retrato emocionante de uma mulher que fez do sorriso um escudo e uma arma. A escolha de mostrar Eunice na velhice, aos 86 anos, pouco antes de sua morte em 2018, é um lembrete de que a luta contra o autoritarismo é longa, mas repleta de conquistas importantes.


As cenas finais, em que a família aparece unida, selam o legado dessa mulher extraordinária. O sorriso que Eunice exige é, mais do que um gesto, uma reafirmação da dignidade humana diante da tentativa de apagamento. É a força de quem não permite que a crueldade e o medo destruam a essência da vida.


Ainda Estou Aqui é mais do que um filme; é um manifesto silencioso, porém poderoso, contra o autoritarismo. Não importa se o Oscar ou outras premiações reconhecerão sua excelência. Sua maior vitória é tocar o público, sensibilizar até mesmo aqueles que defendem regimes autoritários, e manter viva a memória de que toda forma de tortura e repressão é inaceitável.


Que o sorriso de Eunice, transformado em símbolo de resistência, inspire não apenas a denúncia, mas também a construção de um futuro onde nenhuma família precise viver a dor de um desaparecimento político ou a sombra de um regime autoritário.


Ditadura nunca mais.


Ivo Fernandes

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