O estupro não nasce no escuro
cultura, poder e a fabricação da violência

Quando cinco jovens, um de 17 anos, dois de 18 anos e dois de 19 anos, estupram uma adolescente de 17 anos, o senso comum corre para duas saídas fáceis: a monstruosidade individual ou a explicação moralista, “São monstros”, “Faltou Deus”. Ambas as respostas tranquilizam porque isolam o ato do mundo que o produziu. Mas o estupro não nasce no escuro. Ele germina em discursos, fantasias, permissões simbólicas e estruturas históricas que atravessam a cultura.
Os números brasileiros não permitem ingenuidade. Estimativas do Ipea indicam que o país pode registrar cerca de 822 mil casos de estupro por ano, algo em torno de dois por minuto, considerando a subnotificação estrutural. Relatórios recentes sobre violência sexual contra crianças e adolescentes mostram crescimento contínuo dos registros, com predominância esmagadora de vítimas do sexo feminino, muitas entre 10 e 14 anos. A maior parte dos agressores é conhecida da vítima. Isso desmonta a fantasia do “estranho perigoso na esquina”. A violência sexual é um fenômeno estrutural, doméstico, relacional e cultural.
A primeira tese que precisa ser afirmada com rigor é esta: estupro não é excesso de desejo; é exercício de poder. A literatura internacional e nacional converge nesse ponto. A violência sexual é uma forma extrema de dominação, uma afirmação violenta de hierarquia. Ela comunica algo: “eu posso”. Nesse sentido, o estupro é um ato político antes de ser um ato sexual. Ele reafirma uma ordem simbólica na qual o corpo feminino é território de posse, teste de virilidade ou moeda de validação masculina.
A psicanálise ajuda a aprofundar essa leitura. Não se trata de reduzir o ato a uma patologia individual, embora haja psicopatologias envolvidas em muitos casos. O que interessa é a dimensão cultural do gozo. Uma cultura que erotiza a dominação, que associa masculinidade à conquista e que educa meninos para provar potência pela via do corpo feminino produz subjetividades inclinadas à transgressão da alteridade. O outro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto de confirmação narcísica.
É nesse ponto que a chamada “manosfera” contemporânea, incluindo vertentes do discurso Redpill, precisa ser analisada com seriedade acadêmica e não apenas com indignação moral. O termo Redpill, retirado da metáfora de Matrix, tornou-se bandeira de uma ideologia que sustenta três eixos recorrentes: naturalização da hierarquia de gênero, vitimização masculina e deslegitimação sistemática do feminismo. A narrativa central é a de que os homens teriam perdido poder e precisariam “retomá-lo”. O ressentimento torna-se combustível identitário.
Nem todo jovem que consome esse conteúdo se tornará agressor. Isso seria uma simplificação irresponsável. Mas discursos moldam imaginários. E imaginários moldam limites. Quando mulheres são constantemente descritas como manipuladoras, interesseiras ou biologicamente programadas para submissão, constrói-se um campo simbólico no qual a violência encontra menos resistência moral. A desumanização precede a agressão.
Aqui entra uma questão delicada e que exige maturidade intelectual: o papel de certos discursos religiosos conservadores. Não se trata de acusar o cristianismo, muito menos a fé em si. Trata-se de analisar leituras específicas que supervalorizam o homem como “chefe”, “autoridade natural”, “cabeça do lar” em termos ontológicos, e não apenas funcionais ou simbólicos. Quando a liderança masculina é apresentada como ordem divina imutável, o risco é que a diferença se transforme em hierarquia e a hierarquia em autorização implícita de controle.
Muitas vezes o discurso não diz “o homem pode dominar”. Ele diz algo mais sutil: “a mulher deve se submeter”. A diferença é retórica, mas o efeito simbólico pode ser semelhante. A naturalização da assimetria cria uma pedagogia silenciosa da superioridade. E onde há superioridade ontologizada, a alteridade se fragiliza.
Como teólogo e psicanalista, preciso afirmar algo com clareza: qualquer leitura cristã que legitime violência ou silencie a dor da vítima trai o próprio núcleo do Evangelho. A tradição cristã, quando lida à luz da kenosis, o esvaziamento do poder, aponta para serviço, não para dominação. O problema não é a fé; é sua captura ideológica por projetos de poder.
A violência sexual coletiva, como no caso dos cinco jovens, acrescenta outro elemento psíquico relevante: o fenômeno de grupo. O grupo pode funcionar como amplificador de pulsões agressivas e como diluidor de responsabilidade individual. A culpa se fragmenta, o superego se enfraquece, a excitação se compartilha. O que talvez não fosse feito sozinho torna-se possível na validação mútua. A masculinidade é performada diante dos pares.
Vivemos, ainda, uma cultura pornificada, na qual a sexualidade é frequentemente representada como invasão, insistência e conquista. Jovens aprendem sobre sexo antes de aprender sobre consentimento. Aprendem sobre performance antes de aprender sobre limite. O desejo é ensinado como direito, não como relação.
Não se trata de produzir pânico moral, mas de reconhecer que há uma convergência perigosa entre três vetores: patriarcalismo cultural histórico, radicalização digital de ressentimentos masculinos e instrumentalização religiosa da hierarquia de gênero. Essa convergência não determina o estupro, mas pode criar um ambiente simbólico mais permissivo à objetificação.
É fundamental dizer também que a desigualdade material, a impunidade e a falência de políticas públicas robustas de educação sexual e afetiva agravam o quadro. Onde não há educação para o reconhecimento do outro como sujeito, há terreno fértil para a violência.
Do ponto de vista clínico, precisamos repensar a formação da masculinidade. Não basta punir, embora punir seja necessário. É preciso intervir na constituição simbólica dos meninos. Trabalhar afeto, frustração, limite, alteridade. A análise ensina algo precioso: o desejo só amadurece quando reconhece que o outro não existe para completá-lo.
O estupro é a falência ética do reconhecimento. É o triunfo do gozo sobre o laço. É o momento em que o outro deixa de ser pessoa e passa a ser instrumento.
Se queremos enfrentar essa realidade, precisamos de políticas públicas, sim. Precisamos de educação, sim. Mas também precisamos de coragem para revisar discursos, inclusive aqueles que julgamos sagrados. Precisamos perguntar que tipo de masculinidade estamos celebrando, que tipo de liderança estamos ensinando, que tipo de erotismo estamos normalizando.
A violência sexual não é um raio que cai do céu. Ela é sintoma. E todo sintoma aponta para algo recalcado na cultura.
Enquanto não encararmos isso com honestidade intelectual e ética, sem demonizar indivíduos como monstros isolados e sem absolver estruturas como se fossem neutras, continuaremos reagindo a casos chocantes sem transformar o solo que os produz.
A pergunta, no fundo, não é apenas “por que eles fizeram isso?”.
A pergunta mais incômoda é: que mundo ajudou a torná-lo possível?
Ivo Fernandes


