O Auê que assusta: fé, poesia e o medo do Brasil profundo
Quando a arte toca o chão do povo, parte da religião reage com suspeita e revela mais sobre si do que sobre a canção.

Há um incômodo recorrente que atravessa parte do cristianismo brasileiro sempre que a fé ousa sair do lugar estreito onde foi aprisionada. A recente polêmica em torno da música Auê (A fé ganhou) não é exatamente nova, ela apenas repete, com novas roupagens, um velho roteiro: o da suspeita, do policiamento simbólico e da demonização do que escapa ao controle de uma estética religiosa empobrecida.
O que está em jogo não é apenas uma canção. É uma visão de mundo.
Quando líderes, perfis religiosos e comentaristas se apressam em acusar a música de “flertar com macumba”, de “misturar referências perigosas” ou de “abrir brechas espirituais”, o que se revela não é zelo doutrinário, mas uma profunda incapacidade de lidar com a linguagem simbólica, com a liberdade poética e com a complexidade cultural do Brasil. Há, nesses ataques, um medo travestido de fé, e um preconceito travestido de discernimento.
Como teólogo, não posso ignorar o empobrecimento da noção de revelação que sustenta esse tipo de crítica. Deus, para muitos, parece só conseguir se comunicar dentro de um vocabulário autorizado, de uma harmonia padronizada e de um conjunto de imagens previamente “higienizadas”. Qualquer deslocamento simbólico vira ameaça. Qualquer ambiguidade vira pecado. Qualquer proximidade com o corpo, com o povo, com a festa, vira escândalo.
Mas a tradição bíblica nunca foi assim.
A Escritura está cheia de cânticos excessivos, danças suspeitas, metáforas perigosas e imagens que, se lidas com a literalidade pobre de hoje, também seriam denunciadas como “confusas” ou “sincréticas”. Davi dançando até se despir; os salmos atravessados por erotismo simbólico, violência poética e clamor corporal; o próprio Cristo falando por parábolas, recusando o controle do sentido único e deslocando permanentemente quem o escutava.
O problema é que parte do cristianismo contemporâneo desaprendeu a lidar com símbolo. E quando o símbolo retorna, ele retorna como ameaça.
Do ponto de vista filosófico, o ataque à música revela algo ainda mais profundo: a obsessão moderna por fixar o sentido. Vivemos numa cultura que desconfia do que não pode ser imediatamente catalogado. A multiplicidade interpretativa, que sempre foi a riqueza da arte, passa a ser vista como perigo. O símbolo, que deveria abrir mundos, é reduzido a um teste de ortodoxia.
“Auê” vira problema não porque diz algo errado, mas porque diz mais de uma coisa. E isso é insuportável para uma fé que só se sente segura quando controla.
Como psicanalista, eu diria: há aí uma angústia mal elaborada diante do que escapa. Quando não se consegue simbolizar, projeta-se. Quando não se tolera a ambiguidade, acusa-se. O discurso que corre rapidamente para o “isso é demoníaco” revela menos sobre o objeto e mais sobre o sujeito que fala. É o retorno do recalque religioso: tudo aquilo que foi expulso, corpo, ritmo, ancestralidade, festa, povo, volta como fantasma ameaçador.
E aqui é preciso nomear algo com clareza ética: há, sim, preconceito religioso nesse debate. Especialmente contra as religiões de matriz africana. Não porque a música “seja” dessas tradições (essa é uma leitura forçada), mas porque basta qualquer aproximação estética, rítmica ou simbólica com o que é afro-brasileiro para que o alarme seja acionado. O que é negro, popular e não europeu continua sendo visto como suspeito. Demonizar símbolos é uma velha estratégia de dominação cultural.
Isso não é novo. É estrutural.
Por isso, a defesa da liberdade poética não é um capricho artístico, mas um posicionamento ético. A arte não precisa pedir licença à teologia moralista para existir. A poesia não deve satisfação à paranoia religiosa. A fé que amadurece não vigia tudo; ela confia. Ela discerne sem destruir. Ela acolhe sem precisar enquadrar.
Há beleza no fato de uma canção permitir múltiplas leituras. Há maturidade espiritual em suportar que o outro ouça algo diferente do que eu ouvi. Há sabedoria em reconhecer que o sagrado não cabe inteiro nas nossas categorias. Quando a fé ganha, ela ganha justamente aí: quando deixa de ter medo.
Talvez o verdadeiro “auê” que assusta não esteja na música, mas no que ela revela. Revela um cristianismo ainda em luta com o próprio chão. Um cristianismo que, muitas vezes, ama mais a forma do que o Evangelho, mais o controle do que a graça, mais a pureza estética do que o amor ao próximo.
Como líder da Comunidade do SER, sigo acreditando numa espiritualidade que não precisa expulsar o diferente para se afirmar. Numa fé que não transforma arte em tribunal. Numa experiência com Deus que reconhece que o povo canta como vive, com corpo, com história, com ambiguidade, com beleza.
Se a fé não suporta poesia, talvez o problema não esteja na poesia.
E se o auê incomoda tanto, talvez seja porque ele toca exatamente onde ainda não fomos curados.
Ivo Fernandes



