Quando Deus vira slogan
fé, autoritarismo e responsabilidade democrática

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade, e tenho a impressão de que o Brasil atravessa um desses momentos. Escrevo estas palavras com total consciência das contradições políticas, e sei que não existe um campo inteiramente puro. Escrevo como cidadão, professor de Filosofia, psicanalista e teólogo; como alguém que aprendeu a desconfiar das certezas absolutas, sobretudo quando elas se transformam em instrumentos de poder. E escrevo porque me inquieta ver, mais uma vez, a fé cristã ser usada não para servir, acolher e produzir justiça, mas para sacralizar um projeto político e interditar o pensamento.
Vivemos uma crise democrática que não é exclusivamente brasileira. O Relatório da Democracia 2026, do Instituto V-Dem, aponta que o mundo terminou 2025 com 92 autocracias e 87 democracias, enquanto 74% da população mundial vive hoje sob regimes autocráticos e a liberdade de expressão, segundo o mesmo estudo, deteriorou-se em 44 países. Não estamos, portanto, apenas diante de uma impressão pessimista, mas de um processo histórico mensurável, no qual democracias vêm sendo enfraquecidas por dentro, frequentemente por líderes que chegam ao poder por meio do voto e, uma vez nele, atacam as instituições que limitam sua vontade.
O autoritarismo contemporâneo raramente se apresenta anunciando o fim da democracia; ao contrário, diz que pretende salvá-la, apresenta-se como “a voz do povo”, denuncia toda mediação institucional como obstáculo e transforma juízes, professores, jornalistas, cientistas, artistas e adversários políticos em inimigos da nação. Seu discurso é antissistema, mas seu objetivo não é extinguir o poder: é capturá-lo.
Esse movimento encontra terreno fértil naquilo que Anna Kornbluh denomina “imediatez”: uma cultura que dissolve mediações, achata distâncias e nos entrega a sensação de acesso direto ao real, fazendo com que a experiência precise ser rápida, a imagem substitua o argumento e a indignação anteceda a compreensão. As redes sociais não inventaram sozinhas esse sujeito, mas aprenderam a explorá-lo com extraordinária eficiência.
Na política, a imediatez produz consequências graves, porque substitui a reflexão pela reação, o projeto pela identificação e a cidadania pelo pertencimento tribal. Nesse ambiente, o eleitor já não é convidado a avaliar propostas, trajetórias e compromissos institucionais, mas convocado a escolher entre “nós” e “eles”, “Deus” e “o diabo”, “o bem” e “o mal”.
A psicanálise nos ajuda a compreender que ninguém escolhe apenas por motivos inteiramente conscientes, pois somos atravessados por afetos, identificações, medos, ressentimentos e fantasias. Isso não elimina a responsabilidade; ao contrário, torna ainda mais urgente o trabalho de interrogar aquilo que nos move, especialmente quando um candidato nos oferece uma identidade pronta, um inimigo absoluto e uma promessa de restauração total, solicitando não o pensamento, mas a adesão. É nesse ponto que a política deixa de ser espaço de disputa democrática e assume a forma de devoção. O líder não pode mais ser criticado, porque criticá-lo equivaleria a trair o grupo, a família, a pátria e, finalmente, o próprio Deus.
Em agosto de 2026, Flávio Bolsonaro afirmou que, se eleito presidente, seu primeiro ato seria “decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo”. A frase pode emocionar parte do eleitorado cristão, mas deve inquietar qualquer pessoa que leve a sério tanto o Evangelho quanto a Constituição. Um decreto presidencial não pode entregar uma nação plural a uma confissão religiosa, pois o Brasil pertence aos seus cidadãos: cristãos de diferentes tradições, pessoas de religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, espíritas, indígenas, agnósticos e ateus. Ao contrário do que frequentemente se insinua, o Estado laico não é inimigo da fé, mas precisamente a condição jurídica que protege a liberdade de todas as crenças e impede que uma delas seja convertida em instrumento oficial de dominação.
Do ponto de vista teológico, a frase é ainda mais problemática. Diante de Pilatos, Jesus afirma: “Meu reino não é deste mundo” (João 18,36), o que não significa que a fé deva ser indiferente à vida pública, à fome, à violência ou à injustiça, mas que o Reino por ele anunciado não se confunde com a conquista do aparelho estatal. Cristo recusou o poder como espetáculo e dominação, lavou os pés dos discípulos, aproximou-se dos excluídos e advertiu contra aqueles que gostavam dos primeiros lugares enquanto transformavam a religião em aparência.
Por isso, considero teologicamente grave converter o nome de Jesus em slogan de campanha, porque não há profissão de fé quando o nome de Deus funciona apenas como selo de autenticidade do candidato; há instrumentalização religiosa. Quanto mais um político precisa anunciar que Deus está ao seu lado, mais deveríamos perguntar a serviço de quem estão, concretamente, suas palavras, seus vínculos e suas ações. O terceiro mandamento — não tomar o nome de Deus em vão — não diz respeito apenas a pronunciar palavras consideradas impróprias, mas também a usar o sagrado para conferir autoridade divina a interesses humanos. Deus não é cabo eleitoral, o Evangelho não é patrimônio de uma família e Jesus não pode ser reduzido à logomarca de um projeto de poder.
A retórica que divide a sociedade entre os que estariam “com Deus” e os que estariam “com o diabo” produz um benefício político imediato: torna desnecessário responder a argumentos. Se o adversário encarna o mal absoluto, não há razão para ouvi-lo, reconhecer sua humanidade ou admitir qualquer verdade em sua fala. Resta derrotá-lo. Esse mecanismo é politicamente autoritário e psiquicamente sedutor. Ao projetar todo o mal no outro, o sujeito preserva uma imagem idealizada de si mesmo e do próprio grupo. Não precisa confrontar suas contradições, seus interesses ou sua agressividade. A psicanálise conhece bem o preço dessa operação: aquilo que não reconhecemos em nós retorna como perseguição do outro.
Também aqui há uma ruptura com o Evangelho. Jesus não ensinou seus seguidores a demonizar adversários. Mandou amar os inimigos, recusou a lógica da vingança e advertiu contra o julgamento hipócrita. A fé cristã não elimina o conflito político, mas impede que transformemos o outro em não humano. Quem semeia ódio, humilhação e medo pode repetir versículos; não é por isso que passa a testemunhar o Cristo. A linguagem religiosa tampouco pode servir para desviar perguntas sobre a vida pública. Em 2026, vieram a público investigações envolvendo o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e suas possíveis conexões com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Reportagens indicaram que Flávio Bolsonaro teria solicitado ao banqueiro recursos milionários para a produção. Trata-se de investigação em andamento: suspeitas não equivalem a condenação, e o devido processo legal deve ser respeitado para qualquer pessoa.
Mas respeitar o devido processo não significa suspender o direito democrático de perguntar. Um candidato à Presidência precisa oferecer explicações claras sobre suas relações políticas e financeiras. Recitar a Bíblia durante uma crise não substitui transparência, documentos e prestação de contas. A fé, quando autêntica, aumenta a exigência ética; não concede imunidade ao escrutínio público. O mesmo critério deve valer para todos os candidatos, inclusive aqueles em quem eventualmente votaremos. Democracia não é culto à personalidade. Nenhum governante merece fidelidade incondicional. O voto não é sacramento, e o político não é messias.
Não afirmo que a democracia brasileira viva literalmente seus “momentos finais”, porque essa formulação pode produzir o mesmo efeito de medo absoluto que critico. A democracia ainda existe, resiste e dispõe de instituições, organizações civis e cidadãos capazes de defendê-la. Mas seria irresponsável ignorar os sinais de erosão: ataques reiterados ao sistema eleitoral, hostilidade à imprensa, culto à força, deslegitimação dos adversários e tentativas de submeter as instituições ao projeto de um grupo.
Também não proponho que o eleitor substitua uma devoção por outra. Não se trata de imaginar que Lula, a esquerda ou qualquer candidatura estejam acima da crítica. O compromisso democrático exige avaliar todos com rigor. O que não podemos fazer é tratar como equivalentes projetos que aceitam a alternância de poder e projetos que alimentam permanentemente a desconfiança contra as regras do próprio jogo.
É por essas razões que não darei meu voto a Flávio Bolsonaro. Esta é uma decisão pessoal, pública e argumentada — não uma ordem dirigida ao leitor. Minha decisão não nasce do ódio à fé cristã, mas do compromisso com ela; não nasce do desprezo pelos eleitores do candidato, mas da recusa a tratá-los como incapazes de reflexão; não nasce da crença em um campo político imaculado, mas da convicção de que há limites que uma democracia não pode normalizar.
Antes de votar, sobretudo se você é cristão, não pergunte apenas quem pronuncia mais vezes o nome de Deus. Pergunte quem respeita a dignidade dos que creem de outro modo. Pergunte quem aceita limites, presta contas, reconhece adversários e protege a pluralidade. Pergunte se a linguagem religiosa está produzindo serviço ou poder, cuidado ou perseguição, justiça ou privilégio.
A fé que precisa de um decreto para existir já começou a perder sua liberdade. E a democracia que entrega sua consciência a um salvador já começou a abrir mão de si mesma. Talvez a tarefa deste tempo seja menos ruidosa e mais exigente: recuperar as mediações, suportar a complexidade, desconfiar das certezas fáceis e devolver ao voto aquilo que a propaganda tenta retirar dele — consciência, responsabilidade e liberdade.
Ivo Fernandes



